Parar o vento com as mãos

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Imagem base gerada por: openart.ai

Vivemos imersos num turbilhão de informação, de muitas e diversas origens, formatos, suportes tecnológicos. Mais do que nunca e decerto de forma ainda mais acentuada no futuro, as culturas interpenetram-se e influenciam-se.

As palavras e a linguagem são parte essencial destas interações.

Por uma qualquer razão que não entendo bem, apesar da língua portuguesa ter uma estrutura e vocabulário ricos e robustos, é inundada de forma que julgo ser excessiva por novas palavras, a maioria das quais não a enriquecem, por serem desnecessárias. Além de que, frequentemente, trazem consigo fonéticas que são estranhas à nossa língua produzindo-se textos que não cumprem as mais elementares regras de ortografia.

Tentar evitar que este fenómeno suceda, é como tentar parar o vento com as mãos.

Aqui deixo alguns exemplos, no caso, decorrentes da língua inglesa:

- “Comportamentos aditivos”; “Pessoa está em adição”

Estes termos surgiram recentemente por clara influência do inglês “addicted”.

Podíamos dizer “A pessoa está viciada”, ou “O comportamento é de vício”. Estava a palavra “adição” tão sossegada, focada num conceito matemático elementar, e caiu-lhe em cima este novo significado abstruso!

- “O estacionário da minha empresa”

Novamente a influência do inglês “stationery”.

Refere-se aos artigos de papelaria, como por exemplo sobrescritos, ou folhas pré-impressas com o logotipo. Repito o comentário anterior… coitada da palavra que estava tão descansada e estacionária… que mal fez ela para merecer este castigo?

Note-se que estes dois exemplos têm, apesar de tudo, o mérito de não violentarem a ortografia da língua.

Vejamos alguns casos em que isso não ocorre.

- Performance

A performance artística foi aclamada por todos; O atleta teve uma excelente performance

Aqui surge o termo inglês tal e qual é. Está neste momento tão enraizado o seu uso que não será possível evitá-lo, se bem que não fosse difícil usar termos portugueses. O espetáculo (a atuação) foi aclamado por todos. O atleta teve um excelente desempenho.

Mas se vamos mesmo adotá-lo, adotemos “a sério”. Tenha-se em conta o acento, pois é uma palavra esdrúxula. Perfórmance! Fica esquisito, não fica? Há que ser corajoso! 😊

- Marketing

Mais uma vez usamos o termo inglês. Curiosamente há uma espantosa diferença entre o significado normalmente adotado em Portugal e nos países de língua oficial inglesa. Entre nós foca-se na promoção de produtos. Na origem tem um entendimento bem mais abrangente. Em qualquer caso, se o queremos adotar, adaptemos a fonética à nossa ortografia. Seria talvez “Marquetingue”! Ganha mais uma sílaba! 😊

- Bullying

Outro termo em inglês. Com direito a dois “eles” pelo preço de um! E mais um “i” a seguir a um “y”! Aparentemente fica melhor do que referir violência e/ou ameaças, palavras talvez demasiado banais para informação sofisticada… E se queremos adotar, adote-se “Bulingue”! 😊

 

Claro que esta lista podia ser muitíssimo mais longa. Há por exemplo toda uma panóplia de palavras inglesas terminadas em “ing” que surgem na nossa utilização comum, como branding, briefing, networking, ranking, shopping...

Na minha opinião, o cidadão português, perante a língua de sua majestade "Charles the third", é adepto de uma atitude “offcoursing”!

 

Mas aceitemos sem amargura estas “evoluções”, esperando que os mecanismos essenciais da língua consigam resistir a esta erosão.

Há razões para estar otimista?

Penso que sim!

Encontrei recentemente num alfarrabista, um livrinho que penso nos ajudará a ter uma perspetiva mais completa deste tema.

Tem por título “Estrangeirismos, erros e vícios da linguagem”. Foi seu autor Silva Bastos e foi publicado em 1933.

Como o título dá a entender, exprime a opinião do autor sobre palavras que considerava estarem a ser adotadas de forma incorreta ou mesmo serem desnecessárias. Tendo em conta a época, não espanta que a maioria das influências seja de palavras da língua francesa.

Passado quase um século após esta publicação, achei curioso trazer aqui exemplos extraídos desse livro.

Palavras / expressões que o autor considerava desnecessárias, mas que estão atualmente em uso corrente:

Abandonar (ex: …projeto); Afazeres; Alarmar / alarme; Álbum; Artigos (artefactos); Atitude (comportamento); Avalanche; Banal; Bandido; Bar; Bebé; Bizarro; Cabine; Cachecol; Carnaval; Cave; Chantagem; Constatação; Controlar; Derrapagem; Desapontar; Desolado (triste); Eclodir; Eclusa; Écran; Elite; Embalagem; Encorajar; Envelope; Escroque; Estar em causa; Evoluir; Fantoche; Fazer as delícias; Festival; Fétiche; Fortuna; Foto; Fracassar; Gare; Gentil / gentileza; Golpe (… de estado / …de vista); Greve; Grotesco (ridículo); Guiché; Handicap; Hangar; Humor; Imbecil; Imbróglio; Imiscuir; Inapto; Investir (capital); Legumes; Lanche; Magazine; Marionete; Massacrar; Menu; Montra; Morgue; Nuance; Peluche; Pioneiro; Porta-voz; Pose; Puro-sangue; Ravina; Repórter; Restaurante; Revanche; Sabotar; Sensacional; Tranche; Truque; Vedeta; Viabilidade / viável; Violeta (cor); Vitrina; Víveres.

 

E que outras palavras / expressões afinal seguiram o desejo do autor e sendo, entretanto, abandonadas do uso comum?

Aqui deixo exemplos:

Adresse (endereço); Agrément; À la page (na moda); Alta novidade; Amarissagem; Amusant; Auditor (ouvinte); Bolapé (futebol); Broadcasting (radiodifusão); Bureau (escritório); Calembourg (trocadilho); Chagrin (desgosto); Charge (troça);  Charivari (tumulto); Chambre (quarto); Dandy (elegante); Débacle (ruína / destruição); Dessert (sobremesa); Dróbaque (de Drawback); Estaminet (café reles); Fauteil (poltrona); Femme de ménage (mulher a dias); For ever; Frisson; Front (frente de batalha); Gaspilhar (desperdiçar); Groom (moço de recados); Guiauto (condutor de automóvel); Hinterland (terras do interior); Lady; Madama; Mal entendu; Malgré-tout (apesar de tudo); Maman; Meeting (reunião); Ménage (doméstico); Mignon (giro); Panier (cabaz); Panne (avaria); Pardessus (sobretudo); Partenaire (parceiro); Passe-partout (porta retratos); Passerelle (passadiço); Pendant (faire…) (emparelhar); Pince-nez (lunetas); Plateau; Portanto (contudo); Recuerdo; Rendez-vous; Reprise (repetição da peça); Saison (temporada); Savoir-faire; Season (temporada); Séjour (estadia); Self; Self-control; Shake-hand (aperto de mão); Snob; Souvenir; Speaker (orador); Stand; Standard; Store (estore); Surménage (esgotamento / trabalho); Tea (chá); Tea-room (casa de chá); Terroir (gout du…) (sabor pitoresco); Tête-a-tête; Toast (brinde); Toilette; Tour de force; Tournée; Tout-court; Tripotage (trapalhada); Trottoir (passeio); Trust (monopólio); Vernissage; Vient-de-paraitre / vem de aparecer (foi publicado); Vis-a-vis (frente-a-frente); Wagon-lits; Water-proof (à prova de água); Week-end (fim de semana).

 

Em conclusão

O tempo fez o seu caminho e a língua portuguesa resistiu!

Tenhamos confiança de que vai manter este bom desempenho!

Ou será que deveria dizer “boa performance” 😊?

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