O estranho poço de que não havia memória em Caria concelho de Belmonte

A minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte, é um espaço habitado há muitos séculos. São visíveis imensos sinais de que o seu passado percorreu um longo caminho no tempo. Estruturas graníticas de antigas habitações ou simples guarda de alfaias e animais, as ruas com traçado desalinhado, os muros de pedra com diversos tratamentos e cuidados na sua construção, que ladeiam os caminhos até aos terrenos envolventes…

Um olhar atento descobre inúmeras particularidades que podem à primeira vista passar despercebidas. Um sinal gravado numa ombreira, uma data num lintel, uma marca de uso anterior de uma pedra de um muro. Ganhei gosto em deambular ao acaso pelas ruas e caminhos e, confesso, por vezes entrei em quintais e pátios, nem sempre conseguindo a autorização dos donos pois estariam ausentes.

Num desses passeios, por volta do ano 2000, andei no olival que fica contíguo ao adro da igreja matriz, a norte, perto do depósito da água. Desse lado do olival e junto ao muro que o delimita do adro, o espaço estava repleto de silvas, pelo que subi para cima do muro. Fui então surpreendido com a visão do que parecia um poço por entre o denso silvado. Porém, não parecia ser um poço comum. Viam-se uma pedras colocadas no fundo, numa posição que não se percebia bem a função. Como nessa altura não tinha comigo a máquina fotográfica, fiz um esboço a esferográfica que mostro a seguir. Reparei depois que havia uma espécie de caminho que parecia conduzir ao “poço” e que surge também representado.

Note-se que junto ao “poço” está também representado um barracão que servia de armazém, com porta para o adro, entretanto já demolido.

Esboco_ano_2000.JPG
Esboço inicial quando da “descoberta”

Na altura não atribuí importância especial a este achado até porque estava em terreno privado e estava fora de questão conseguir limpar o espaço para o observar em detalhe. Alguns meses depois, regressei lá e tirei algumas fotos que mostro a seguir.

Silvado_junto_ao_poco_ano_2000.JPG
Silvado na zona do “poço” – ano 2000

Forno_foto_ano_2000.JPG
Vista do “poço” –  ano 2000

Quando a Junta de Freguesia resolveu reorganizar o espaço naquela zona do adro, retirando o barracão e limpando as silvas, foi finalmente possível obter fotos bem mais elucidativas desta estrutura, que a seguir mostro.

Forno_ceramico_limpo_foto_1.JPG
Imagem da estrutura – ano 2000 com o meu amigo Mário Ribeiro

Forno_ceramico_limpo_foto_2.JPG
Imagem da estrutura – ano 2000

Forno_ceramico_limpo_foto_3.JPG
Imagens da estrutura – ano 2000

 

Localização

A imagem seguinte, com a indicação da estrela, mostra a localização desta estrutura em Caria. Corresponde às coordenadas 40.29691860969787, -7.362830560487362.

Caria_casario_mais_antigo.JPG
Parte central de Caria com o núcleo de casas mais antigo

Na imagem anterior a estrela marca a localização da estrutura. O retângulo assinalado surge expandido na imagem seguinte permitindo ver esta zona mais em detalhe com a seta a indicar mais exatamente o seu posicionamento.

Para quem não conheça Caria será útil esclarecer que esta localização está no cimo da colina em que se situa a vila. O núcleo antigo do casario situa-se sobretudo a sul, aproveitando a exposição solar. A norte e este temos terrenos com olival, carvalhos, zonas de pastoreio. O forno localiza-se na periferia da vila.

Localizacao_forno_ceramico.JPG
Localização da estrutura

Qual a finalidade desta estrutura

Com alguma pesquisa e conversas com os meus amigos, aos poucos ganhou consistência a hipótese de se tratar de um forno cerâmico. E à medida que fiz mais pesquisas na internéte, como a seguir vou resumir, essa hipótese consolidou-se.

Será também relevante esclarecer que posteriormente, em 2021, a Câmara de Belmonte, através da sua arqueóloga Elisabete Robalo, procedeu a escavações e um estudo no terreno. Se bem que até ao momento não tenha sido feita nenhuma publicação, por contacto que fiz, confirmou-me que essa é também a sua convicção, apesar de não terem sido identificados materiais específicos resultantes da produção do forno. Informou-me também que o afloramento apresenta sinais de ter estado em contacto com o fogo, pelo tom mais avermelhado, o que valida a hipótese dessa sua função.

É curioso constatar que não são conhecidas descrições que atestem a sua existência. Mesmo nas memórias paroquiais [1] de 1758, ordenadas pelo Marquês de Pombal a todas as paróquias, e que no caso de Caria foram alvo de uma resposta bastante detalhada por parte do pároco [2], não há qualquer menção à existência deste forno, o que é ainda mais estranho pois situa-se muito próximo da igreja matriz. Estaria inativo na época? Não é provável. Uma estrutura de produção de telha e outros bens cerâmicos como por exemplo cântaros e alguidares era importantíssima e decerto que se procuraria mantê-la ativa sempre que possível.

Note-se também que nesta região não havia a argila necessária à produção destes bens, pelo que a mesma teria de ser adquirida e transportada até aqui. Segundo José Lisboa [4), as localizações de argilas em Portugal situam-se de acordo com um levantamento que ele apresenta num mapa que aqui transcrevo apenas na parte correspondente às Beiras. Ao contrário do que sucede mais perto do litoral, são muito escassas as fontes de argila nos distritos de Castelo Branco (CB) e Guarda (G).

Inventariacao_ocorrencias_argila_comum_segundo_Lis
Inventariação de ocorrências de argila comum segundo Lisboa [3], marcando-se com a estrela a localização de Caria.

Quais as suas características

A imagem seguinte é bastante útil para melhor compreendermos com mais exatidão a sua distribuição espacial. É uma imagem que me foi cedida pela Dra Elisabete Robalo a quem agradeço. A foto é tirada do reduto da Casa da Torre, permitindo ter uma visão de perspetiva elevada. Foi obtida na sequência das escavações atrás referidas.

Distribuicao_espacial_da_estrutura.JPG
Distribuição espacial da estrutura – Foto da Dra Elisabete Robalo

A – Poço correspondente à fornalha e espaço de cozedura
B – Galeria de acesso à fornalha
C – Conduta de água

Toda a estrutura está cavada num grande rochedo granítico, o que constitui um trabalho notável. Note-se que em Caria são comuns poços de água igualmente abertos em rochedos de granito (Nota 1).

 

Alguns dados sobre o poço da fornalha e espaço de cozedura

A imagem a seguir ajudará a entender esta explicação, indicando-se em alguns casos entre parêntesis a correspondência com uma letra.

Tem uma boca correspondente a um círculo quase perfeito, com cerca de 240cm de diâmetro (A).

A cerca de 84 cm do fundo, a boca estreita, formando uma borda com cerca de 24cm de lado (B). Ou seja, a boca de 240cm, abaixo da borda estreita para cerca de 192cm.

Na parte superior a boca segue a forma original do rochedo, que tem partes a diferentes alturas. Mas para simplificar, podemos dizer que a altura que vai da boca do poço à borda acabada de referir, varia em torno de 111cm (C). O que também corresponde a dizer que a altura que vai da boca do poço ao seu fundo varia em torno de 198cm (D).

Dimensoes_poco.JPG
Algumas medidas do “poço”

 

Alguns dados sobre a fornalha

Como veremos mais adiante, tudo leva a crer que a fornalha original não tivesse as características que terá tido nos últimos dias de uso e que chegou até nós. Nas últimas utilizações, como se pode ver nas imagens, era constituída por pares de pedras de forma paralelepipédica, relativamente estreitas ao longo da sua dimensão maior, formando “Vês” invertidos.

As medidas que tirei às pedras que formam o “V” mais à direita e que se situa à entrada da boca da fornalha, são aproximadamente as que são mostradas na imagem seguinte.

Medidas_V_invertido.JPG
Algumas medidas às pedras em “V” invertido

A boca de acesso à fornalha é constituída por um pequeno túnel. A imagem seguinte mostra o seu atual aspeto bem como as suas maiores dimensões de altura e largura.

À superfície, a rocha que separa o poço principal da galeria de acesso à fornalha tem cerca de 60 cm de largo.

Dimensoes_boca_fornalha.JPG
Algumas medidas da boca de alimentação da fornalha

 

A conduta de água

A conduta de água que neste momento está à vista, tem cerca de 230cm de comprimento. Mas seria decerto muito mais longa e teria origem na denominada cisterna, que se encontra dentro do “reduto”. Esta cisterna tem a configuração de um poço aberto com uma escadaria. Ao se descer a escadaria para alcançar a água passa-se por um pórtico gótico. A água escoaria por esta conduta quando se pretendesse terminar a combustão.

Como seria o seu funcionamento

É bastante intuitivo perceber que haveria uma fornalha por baixo, e por cima seria a zona de cozedura. Trata-se de uma configuração muito comum, utilizada há muitos séculos, mesmo milénios. Também por isso não é fácil a sua datação apenas olhando para a sua configuração. Decerto que estudos arqueológicos adicionais, procurando vestígios de cerâmicas produzidas, serão a melhor forma de conseguir datar o seu período de utilização.

As duas imagens seguintes são retiradas de uma página na internéte apresentando o Forno romano do Lumiar [4], que seria um forno cerâmico, capaz de produzir peças utilitárias de olaria, como cântaros ou malgas. Para isso dispunha de uma plataforma onde essas peças podiam ser colocadas.

Forno_ceramico_Lumiar_boca.JPG
Forno cerâmico romano do Lumiar – vista da boca do forno [4]

Forno_ceramico_Lumiar_grelha.JPG
Forno cerâmico romano do Lumiar – grelha da câmara de cozedura [4]

O desenho esquemático seguinte, retirado de uma outra publicação da internéte [6] mostra a estrutura de um forno romano enterrado, no caso na Inglaterra, vendo-se a posição das peças sobre a plataforma plana. Podiam as peças estar em andares, tipicamente com as peças de maior dimensão nos andares inferiores.

Reconstrucao de um forno romano enterrado legendas
Reconstrução de um forno romano enterrado [6]

No caso do forno de Caria, muito provavelmente era isso que sucederia, pois tem uma câmara de cozedura bastante alta e enterrada acima da borda. Essa borda sustentaria a plataforma.

Como seria constituída a plataforma, sem dados arqueológicos, apenas podemos especular. Poderia ser uma única pedra circular perfurada que assentaria nessa borda. Tal, porém, seria de execução complexa. E com o uso, estando constantemente sujeita a sequências de altas e baixas temperaturas, quebraria decerto ao fim de alguns anos de uso. Poderia ser uma peça única de cerâmica refratária também perfurada, mas com problemas semelhantes à opção em pedra única, acrescendo à dificuldade em obter argila.

Pelas razões expostas, presumo que o cenário usado neste forno fosse o da plataforma ser feita com diversas lajes de pedra, sustentadas na borda e num pilar que ficaria no centro da câmara de combustão, como se pode ver na imagem seguinte.

Não sendo tão prático de usar como tendo uma plataforma de pedra ou placa de argila única, teria a muito grande vantagem de poder ser facilmente consertado se alguma das pedras quebrasse.

A imagem seguinte mostra este tipo de configuração de dois fornos cerâmicos datáveis do período romano, situados em Rumansil, Murça, Trás os Montes, tal como mostrado por Coixão [7] numa ata do III congresso de arqueologia trás-os-montes, alto douro e beira interior.

Rumansil_interior_de_um_dos_fornos_ceramicos.JPG
Interior de um dos dois fornos cerâmicos de Rumansil [7]

Porém, como se constata nas imagens iniciais que refletem a posição das pedras no poço, no seu último período de funcionamento não era esta claramente a configuração.

As pedras em “V” invertido fariam com que a fornalha fosse relativamente pequena e estaria apenas nessa secção interna.

Tal implicaria que não fosse adequado para cerâmicas frágeis de uso quotidiano. Mas seria possível cozer telha, mais especificamente a denominada “telha mourisca”, ou de meia cana, ainda hoje muito fácil de ver em casas antigas em Caria.

As duas fotos seguintes mostram alguns exemplares que guardei, retirados de um palheiro que foi reconstruído. Podemos constatar que são o resultado de um processo muito primitivo de fabrico, pouco padronizado, com imperfeições e variações inclusivamente no tamanho. Podemos ver imperfeições diversas inclusivamente no seu formato, na imagem que mostra um exemplar isolado. A largura desta telha por exemplo varia entre 17cm e 14cm. O seu comprimento é de cerca de 44cm.

Por curiosidade, uma das explicações para a utilização da frase “feito em cima do joelho”, para classificar algo feito de forma rudimentar, tem a ver com o fabrico deste tipo de telha, que frequentemente seria feita por escravos utilizando as coxas como molde. Mesmo muitos séculos após as práticas pouco melhoraram…

Telhas_mouriscas_1b.jpeg
Exemplares de telha mourisca

Telhas_mouriscas_3.jpeg
Uma telha mourisca

Se bem que não tenha encontrado na minha pesquisa nenhum exemplo correspondente, penso que a estrutura em V invertido permitiria cozer uma boa quantidade de telha, pois seria possível sobrepor as telhas em três camadas, tendo em conta as medidas já apresentadas.

A imagem seguinte pretende ilustrar essa abordagem.

Desenho_V_invertido_com_telhas.jpeg
Possível forma de usar a estrutura encontrada para telha mourisca

Como seria o fecho da boca da fornalha quando estivesse em funcionamento

A configuração do forno, enterrado na rocha, permite que o acesso à fornalha possa ser tapado de forma rudimentar simplesmente colocando terra na boca. Porém essa abordagem seria pouco eficaz pois poderia ser necessário realimentar a chama de tempos a tempos.

E há um pormenor na sua configuração que me leva a supor outra possibilidade. A imagem seguinte é igual a uma já apresentada, mas inclui uma seta a assinalar o que pretendo realçar.

Na “Ponte” de separação entre o “poço” e a entrada de acesso à fornalha, é visível um rebaixamento feito na pedra. Se bem que seja uma mera hipótese para o justificar, penso que este rebaixamento poderia servir para colocar uma espécie de grampo metálico, permitindo fixar uma placa metálica no exterior, ou mesmo duas, uma no interior e outra no exterior. Desta forma o acesso podia ser aberto ou fechado de forma expedita com uma boa capacidade de isolamento térmico.

A imagem seguinte pretende ilustrar como ficaria o aspeto quando fechado.

Forno_ceramico_limpo_foto_2b.JPG
“Ponte” de separação entre o “poço” e a entrada de acesso à fornalha

Desenho_porta_com_grampo.jpeg
Hipótese de fecho da boca de alimentação da fornalha – porta metálica com grampo

Conclusão

Parece-me claro que a estrutura aqui apresentada foi um forno cerâmico, equipamento muito importante para suporte ao dia a dia das populações, não apenas para o fabrico de telha, mas também de outras peças de uso quotidiano, como cântaros, malgas, gamelas, etc.

Não é fácil datar o seu período de construção, nem mesmo o de uso, sem ter por base vestígios arqueológicos. Pode ser um forno cerâmico romano, medieval, ou mesmo mais recente.

Teve várias fases de utilização, sendo a última, na minha opinião, para o fabrico de telha.

Constitui um equipamento extremamente interessante que deve ser preservado e alvo de mais estudo e divulgação, podendo ser usado para efeitos didáticos, tanto escolares como turísticos, para conhecimento de técnicas ancestrais e de como este nosso território foi habitado.

Desenho de um forno cerâmico romano da península
Desenho de um forno cerâmico romano da península ibérica [5]

Agradecimentos

Agradeço à Dra Elisabete Robalo a autorização para publicar a imagem em que se pode ver a distribuição espacial da estrutura, a informação quanto à evidência de uso de fogo, bem como a sua total disponibilidade para partilha de ideias.

Agradeço aos meus amigos Mário Ribeiro, Angélica Mugeiro e minha esposa Manuela Moura, a ajuda na coleta de informação.

 

 

Notas

Nota 1 - Nos casos dos poços de água, eram bem mais fundos pelo que o rochedo era por vezes completamente atravessado chegando-se a uma zona de terra e aos lençóis de água. Em minha casa em Caria, existe um poço com essas características, no qual é visível que foram escavados cerca de três metros de rochedo e continuou-se a escavar mais cerca de quatro metros. Até à chegada da água canalizada as populações obtinham a água de fontes naturais, mas também destes poços. Na minha opinião mereceriam também um estudo específico.

 

Referências

[1] – Memórias paroquiais de 1758

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%B3rias_Paroquiais_de_1758

[2] – Memórias paroquiais de Caria – Digitalização do documento

[3] – Lisboa, José Vítor Vieira - Argilas comuns em Portugal Continental: ocorrência e caraterísticas

[4] – Forno romano do Lumiar – informação disponível na internéte

https://lisboaromana.pt/imovel/forno-lumiar

[5] Desenho de um forno cerâmico romano da península ibérica

https://fineartamerica.com/featured/roman-kiln-sergi-segura.html

[6] Taylor, Graham; Lord, Sarah -  2010 - Roman Sunken Kiln Under Construction (reconstrução de um forno romano enterrado)

https://pottedhistory.blogspot.com/2010/11/roman-sunken-kiln-under-construction.html

[7] Coixão, Nascimento Sá; Proto-história e romanização do Baixo Côa: Novos contributos para a sua caracterização;

III congresso de arqueologia trás-os-montes, alto douro e beira interior; Pinhel 2006 – Acta 2

https://www.academia.edu/6904199/III_Congresso_de_Arqueologia_de_Tr%C3%A1s_Os_Montes_Alto_Douro_e_Beira_Interior_Actas_das_Sess%C3%B5es_4_vols_

 

 

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